Como Candy Crush salvou o meu plot

Publicação: 19 de agosto de 2013

Então eu me vi numa situação em que decidi que era hora de fazer a reescrita do meu romance. E eu comecei, só para descobrir que não, não estou pronta para isso.

Olhei pra cima, para o meu mural, onde o Gaiman e o Tolkien, Sarah Bernhardt e as bruxas russas me observam. Ali está a primeira imagem do Alexander, protagonista do Kodiak, desenhada por um querido amigo em uma noite louca de Virada Cultural, a Dita Boelcke, porque não se pode escrever dog fight sem manter o sol nas costas e a Dita Boelcke às vistas, e uma listinha simpática de “33 maneiras de se manter criativo”, entre outras coisas penduradas e santinhos de São Longuinho e da Santa Banda Larga…

Bom, eu não estava me sentindo nada criativa, então fui olhar a listinha.

“termine alguma coisa”

Acho que eu levei um pouco a sério demais isso…

Quando eu tinha 16 ou 17 anos, comecei a escrever a história de uma personagem de RPG. Minha proposta era trabalhar com a área cinza entre fazer o que você acha que é certo e o que é realmente certo, e como algumas pessoas são capazes de fazer “o que for preciso” mesmo quando moralmente questionável. Então eu pensei nisso: um reino onde o imperador fosse um tirano, mas que pela perspectiva dessa guerreira, fosse o príncipe encantado. Criei uma personagem que não só matava e combatia, mas torturava e assassinava, e que se via como alguém bom.

O RPG nunca aconteceu e eu comecei a escrever uma história longa, a primeira da minha vida. Eu não tinha ideia do que estava fazendo. Consegui um monte de cenas soltas do início – meio e fim de uma história. Que ficou abandonada no limbo justo e certo de tudo que se inventou quando era adolescente.

Então, né. Mas aquela personagem, ela tinha uma premissa boa, sabe. Quando você lavava os clichês, a distribuição de pontos de atributo e olhava para a estrutura interna da história, aquilo valia a pena.

E ficou me assombrando por anos.

Claro que do monstrinho original, sobrou muito pouco. Alguns nomes, a estrutura básica do enredo. Mas agora, sobrou coragem para assumir que a história é um romance de fantasia, no sentido de romance história de amor. Os personagens não são mais tão de papelão, a linha do tempo ficou melhor estruturada.

O cenário evoluiu de um mundo de fantasia tolkiendilli genérico para uma versão fantástica da Península Ibérica sob domínio árabe, já que essa é a MINHA referência principal de medievo sendo brasileira e 1/2 de origem portuguesa/espanhola. Os personagens brancos se tornaram uma minoria. A mitologia religiosa, bastante presente na história, saiu dos celta e foi pra África yorubana.

E a cronologia da história mudou: o que antes era o começo, agora é o meio. Todo o backstory foi chutado para escanteio e tá sendo contado entremeado na história conforme necessário.

E ai eu depois de ter um surto e mergulhar em escrever isso tudo (plus as pesquisas sobre Al-Andaluz, tuaregues, hábitos e arquitetura mourisca, armas, combate singular e em massa, culinária, transportes, vegetação, formas de descrever personagens que não são WASP…), eu me esgotei.

As férias acabaram o trabalho começou, os problemas pularam de todos os lados e eu tenho um buraco miserável de três meses na minha cronologia que não consigo resolver de um jeito satisfatório. Esse buraco no tempo que começou a corroer minha produtividade.

Ai eu resolvi largar mão da vida, e ir jogar Candy Crush Saga. Que foi o jogo mais estúpido que eu encontrei. E por três dias eu me dediquei a jogar ele e uns outros do mesmo naipe. E fuçar nos fóruns do NaNoWriMo. Fazer perguntas, dar palppite no plot alheio, perder tempo surfando nos tópicos. Peguei um monte de coisa boa como referência. Li mais.

E agora, no meio de mais uma partida onde eu tentava quebrar mais docinhos em menos jogadas, eu consegui delinear metade dos problemas que eu precisava dar conta. E consegui voltar a escrever.

As vezes, tudo que a gente precisa é se afastar para ter uma visão melhor do todo…

E para quem interessar possa, minha proposta é escrever “com as cartas abertas”. Meu primeiro rascunho tá online para quem quiser criticar, e eu vou escrever aqui os comentários sobre o processo, o que se passa na minha cabeça, de onde vem alguma ideia, porque certas decisões. Como uma forma de organizar minha cabeça mesmo.

E porque para mim, escrever é tudo, menos uma atividade solitária, e eu preciso conversar sobre o que produzo.


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Uma Resposta para
     “Como Candy Crush salvou o meu plot”

  • Eduardo Fernandes disse: 19 de agosto de 2013

    Curioso que aconteceu mais ou menos o mesmo comigo, no meu primeiro livro. Tinha a história, tinha mais de cem página escritas, mas não tava gostando nem um pouco. Deixei quieto, fiquei um ano parado.

    Resolvi voltar, joguei fora o que tinha e, à medida que ia escrevendo, ia mostrando a uma amiga e levando em conta o que ela dizia (não cegamente). Terminei em 5 meses.

    Agora estou no meu segundo livro e prendi muito com o primeiro mas realmente ando sentindo falta de trocar ideias sobre a trama por que, realmente, é essencial ter este feedback.

    Vou ver se consigo ler o teu rascunho.

    Abraços

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