Como eu não ganhei o NaNoWriMo outra vez e como isso ainda assim é uma vitória

Publicação: 29 de novembro de 2013

Eu não vou perder palavras explicando o que é o NaNo. São duas e meia da manhã e em seis horas eu vou estar dentro de uma sala de aula ensinando arte para alunos de 7 anos de idade que eu acho que ainda são bebês demais para estar em uma escola.

Eu comecei a escrever aquilo que hoje se chama A Canção da Serpente quando eu tinha 16 anos. Era uma história de personagem de RPG e eu queria jogar com alguém que não fosse um dos mocinhos. Lindi, uma mulher fria e destemida que não tem escrúpulos e acredita que os fins justificam os meios acabou indo parar uns anos depois em uma aventura de Ravenloft, com um backstory que era um resumo da primeira parte da história que tinha saído de controle e virado outra coisa que não era, definitivamente, uma história de personagem de RPG.

A primeira versão da primeira parte da história foi digitada em uma Remington portátil que rebatia a letra “a” e que morava embaixo do meu beliche de adolescente. No meio da noite, sem conseguir dormir, eu abria ela em cima da cama e, ouvindo baixinho um álbum do Smiths ou do The Cure, batia algumas páginas. Cenas soltas, sem muita preocupação com o que iria costurar as imagens.

Muita coisa mudou. A beliche deu lugar a uma cama japonesa de casal e eu perdi uns cinco anos da minha vida tentando ser adulta. Tenho uma escrivaninha onde sento com o notebook para escrever, com um mural de inspiração e livros sobre o ofício numa estantezinha ao lado. Escrevi muita coisa boa nesse meio tempo, mas essa história ficou lá, perdida no fundo da mente com as coisas que poderiam ser, e não eram.

Então um dia eu estava lendo uma lista de formas de se manter criativo e lá estava: “termine alguma coisa”. Levei isso literalmente. E fui vasculhar na minha mente sobre essa história.

Para dizer a verdade, a história que eu estou escrevendo hoje não tem quase nada da que eu comecei a escrever meia vida atrás. Eu não sou a mesma pessoa – que bom! Minha técnica está melhor. Eu já escrevi um romance, já publiquei uns contos.

Comecei a escrever de novo. Mas do mesmo jeito que escrevi o Kodiak, do mesmo jeito que eu comecei lá, metade da vida atrás, sem saber muito bem onde eu queria chegar. E não deu certo.

Decidi usar o NaNoWriMo para dar conta de colocar esse romance em movimento. E dessa vez, ao invés de ir com a cara e a coragem, eu vou com a estrutura de um outline todo escrito em fichinhas de papel, e centenas de horas de pesquisa para a construção de um mundo coeso. Reconheci que não tenho personagens brancos, que o palácio dessa história é um alcazar mourisco (baseado em Alhambra), que o pai monstro do rei da primeira versão tinha um motivo para ser um cara tão mal e que eu posso costurar furos de roteiro com mais facilidade se eu pensar antes no quanto alguma coisa é verossímil.

Estou com 22855 palavras desde o dia 3 de novembro. Esse livro demora mais dois meses para ser escrito. Espero estar com ele em estado de ser visto pelos leitores beta em meados de maio. Mas mesmo sem ganhar, me sinto vitoriosa.

Eu já disse que tenho um outline da história?

São quatrocentas e poucas fichinhas de cenas. Em cada uma, uma frase ou duas resume o “capítulo”. Fiz uns questionários simples e básicos dos personagens coadjuvantes que mais aparecem para não me esquecer deles. Tenho subtramas claras na mente.

Não estou mais, como na primeira escrita do Kodiak, sendo levada pelo vento, sem saber o que eu quero. Escrever ficção longa exige uma disciplina e uma dedicação muito peculiares, uma técnica.

Escrevi outro dia no Face. Daqui uma década, vou lembrar desse novembro como o mês em que as coisas começaram a mudar.

Minha mãe disse, na última vez em que eu estava comentando sobre meu texto, que eu falo sobre escrever de um jeito diferente agora. Escrever é meu terceiro emprego. Não é ainda remunerado, mas é uma coisa que eu levo com uma seriedade confortável. É algo que eu domino (não domino por completo, nem nunca irei, mas domino).

Apesar de, outra vez, só ter conseguido escrever metade do mês, de ainda falhar em dar conta de dois empregos e um trampo de escritora, eu posso dizer que as coisas estão encontrando um outro eixo.

É um aprendizado. Eu não sou mais a pessoa que começou a escrever a Canção da Serpente. E quando eu escrever a “prequel” dele, a Balada do Leão e do Lobo, eu vou ser uma terceira pessoa.

E sinceridade, eu gosto bastante de saber disso.

ps-desisti de fazer memes que exigem que vc poste no blog todo dia alguma coisa. pelo menos por enquanto. vou encontrar outros jeitos de escrever direto no blog.


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