Jogos de RPG e exercícios de escrita

Publicação: 3 de julho de 2012

Férias enfim! E para comemorar, um fim de semana jogando RPG. O mestre de uma das campanhas, uma campanha de fantasia medieval com apocalipse zumbi, depois de ler a história do meu personagem,  que não é nada assim muito criativo, me pediu mais informações sobre como era o interesse romântico dele. O resultado foi um exercício de escrita divertido, que eu reproduzo aqui.

(meu personagem é um paladino meio orc, mas um meio orc de Pathfinder, então não pense nele como um cara feio: o carisma dele é seu atributo principal junto com a força. tem 2,10m de altura e a aparência feral, então podemos pensar nele como um cara muito bonito, só que uma beleza que não é humana. O nome foi descaradamente roubado das Crônicas de Arthur, rs, mas até ai, eu precisava inventar um nome em cinco minutos, deu no que deu =P. Ele é basicamente um clichê de contos de cavalaria, por isso fiz questão de incluir na história um amor impossível e malfadado, que eu escrevi pelo ponto de vista dela em resposta ao desafio do mestre de jogo e que agora coloco aqui… valeu pelo menos pela minha pesquisa sobre malária =P)

Era só mais um soldado para cuidar. Um entre tantos que já havia auxiliado. Mas quando despiu sua camisa, agradeceu pelo rapaz estar desacordado. Não pode evitar a reação. Era triste olhar a pele castigada de suas costas, cicatrizes antigas de chicotadas e queimaduras, de pancadas que rasgaram a pele. Ele parecia ter sua idade. Passou os dedos pelas marcas altas na pele. Devia ter sido criança quando a maioria foi feita, pela aparência delas para seus olhos treinados. Eram grandes, mesmo em suas costas largas de gigante, e imaginar como eram quando ele era um menino a comoveu. Esticavam-se pelas coxas, pelos ombros. Desamarrou as braçadeiras dele e ali estavam claras e antigas nos antebraços – agora entendia porque ele nunca tirava as braçadeiras. Podia ver pela forma das marcas a cena de uma criança no chão cobrindo o rosto com os braços, indefeso diante da violência.

Respirou fundo antes de ajeitá-lo na cama. Seu rosto era forte, parecia emanar uma nobreza natural. Mas as cicatrizes contavam outra história. Enquanto aplicava a compressa fria em sua testa, pensava porque aquele oficial carregava no corpo as marcas de um escravo.

Estava esmagando as ervas no almofariz, quando lembrou. Uma cena durante seu banquete de casamento, oito anos antes. Um comentário jocoso porque Lord Gwidre levava um escravo para servi-lo ao invés de um escudeiro apropriado. O adolescente que o servia, compenetrado e calmo, chamou sua atenção porque era meio orc, e tinha os olhos de um verde profundo. Os olhos incomuns do capitão Derfell.

Suspirou pensando no casamento. Nagendra era um homem bom, mas parecia ter se arrependido rápido de escolher uma noiva com idade para ser sua filha, talvez sua neta. Era um homem bom, mas agora era sobretudo um homem distante que passava tempo demais guerreando e que sempre adiava a vinda de um filho.

O capitão estava perdido em seus delírios de febre. Sozinho no quarto, e a lareira havia se apagado. Ficou com raiva, pensando em como castigaria seu servo enquanto reacendia o fogo. O capitão gemia em seus pesadelos, e agarrou seu pulso com força quando ela sentou ao seu lado, os olhos abertos para o vazio murmurando ora na língua dos orcs, ora na língua dos homens. Ele poderia esmagar seus ossos como os de um passarinho, mas ela apenas acariciou seu cabelo e cantou uma cantiga de marinheiros, sem se mexer. Esperou que se acalmasse antes de desvencilhar o pulso e erguer sua cabeça para que bebesse a poção.

Despachou uma carta para o marido quando os homens partiram, explicando a doença do capitão. Não quis alarmar os homens que pareciam tão ligados a ele, mas deixou claro na carta que não garantia que sobrevivesse.

A febre não cedeu naquele dia, ou no seguinte. Por uma semana, ela relembrou o que haviam ensinado quando era uma menina, e procurou em seus livros algum remédio que pudesse ajudar. Por uma semana dormiu na poltrona ao lado da cama dele, o sono leve interrompido pelos gemidos e pelo som exausto da respiração difícil, enxugando o suor de seu rosto. Sentia uma ponta de culpa por estar feliz em se sentir útil, em ter mais o que fazer do que fiar e esperar a chegada de alguém que nunca vinha. Fazia tanto tempo que não precisava mais do que cuidar de bobagens, que o desafio a agradava.

Ele abriu os olhos pela primeira vez, e ela fechou as cortinas enquanto ele piscava confuso, para que a luz não incomodasse seus olhos claros. A febre ainda não havia cedido tanto assim e ele mal conseguia se mexer. Mas ela se sentiu vitoriosa.

A primeira coisa com nexo que ele conseguiu falar, com a voz grave titubeante ainda, foi um polido agradecimento. Ela sorriu, dizendo que descansasse. Ele fechou os olhos, e antes de voltar ao confuso sono da febre, pediu desculpas.

Ele melhorava devagar, e então parecia piorar de novo. Ainda assim, era fascinante a absoluta indiferença com que tratava a dor, o desconforto e a fraqueza. Aguentava de forma estóica, sem nunca reclamar, se submetia a tudo que ela dissesse sem questionar. Ele parecia mais velho do que era, com seus modos calmos, e ela se encantava pelo paradoxo da fragilidade forçada no corpo de guerreiro. Ele fazia um esforço para entretê-la contando histórias, quando percebia que estava cansada demais. Então a tarde caia e a febre alta voltava, e ela questionava se ele veria o dia seguinte chegar.

Não conseguia ver nele o oficial que havia chegado com seus lanceiros fazendo a escolta, com seu jeito cortês e distante. Algo nele a fazia pensar no passado, no mar, no que poderia ter sido e não foi. Via um coração e um sofrimento não dito que não conseguia alcançar e que desejava poder curar tanto quanto se esforçava em curar seu corpo.

Ele era tão frágil e gentil e tão belo em seus traços de fera, nos caninos que se via nos lábios entreabertos no esforço de respirar, nas orelhas pontudas, nos traçado largo do rosto. Era belo como um urso ou um tigre, uma força silenciosa que se entregava em suas mãos com tanta confiança, uma confiança que nunca imaginou que um homem pudesse lhe entregar.

Um dia entrou no quarto e o encontrou dormindo ajoelhado no chão, o símbolo de seu deus entre as mãos febris. Foi o dia em que seu coração se partiu. A luz filtrada pelas cortinas deixava tudo azulado, e quando tocou seu ombro, o susto o fez joga-la longe. A calma dele se desfez em um espasmo de dor quando a viu no chão, e sem pensar a abraçou, chorando e implorando perdão, e ela se sentiu em casa encostada no peito dele, o pelo macio e liso e a pele quente da febre, o tremor do medo e do desgosto de achar que a tinha ferido, sem saber quantas vezes a tinha machucado em seus delírios – e naquela hora ela soube que nunca diria isso para ele, nunca faria algo que pudesse trazer de novo aquele arquejar do choro para seu capitão. E ela o abraçou, como se ele pudesse desaparecer no ar, o abraçou com um desejo de poder se misturar a ele, de que tudo pudesse desaparecer fora daquele contato.

Houve sofrimento em seu coração. O sofrimento da culpa de uma traição que não existia, mas que ela desejava. Mas agora, ela passava as noites deitada sobre o cobertor dele, aninhada a ele, cantando para que dormisse. E passavam o dia de mãos dadas, enquanto ela lavava seu cabelo e o trançava, e cada contato parecia significar tanto.

Era novo e bom o que sentia. Apesar de tudo, apesar de terem para si apenas a doença e a lenta convalescença dele.

 

(é bem clichezento, e tem uma figuras ali que é de dar raiva de tão lugar comum, mas valeu pela diversão de poder brincar de romantismo barato, rs. será que sirvo para escrever Julia?)

 

 


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