O que significa escrever para você

Publicação: 14 de outubro de 2013

Embolou o corpo no cobertor, olhando o cipreste através da janela branca de guilhotina. Deitada na cama, podia ver o corpo verde cinzento de agulhas do cipreste, uma linha de telhas cobertas de musgo e um recorte branquicento de céu. De vez em quando, uma sombra escura de pássaro.

Não sabia qual era a hora. Suspeitava o final da tarde, pelo som do apito da fábrica que vento carregava naquela direção.

Não queria sair da cama. Nunca mais. Nada daquilo fazia sentido e nunca faria. Não havia saída hoje e não haveria saída amanhã e o ninho de pássaros de metal que abrigava no peito estava esvaziado, cascas de alumínio vazias e engrenagens quebradas, só.

Na parede o olho de vidro azul fosco acompanhava seu menor movimento.

Respirou fundo enquanto forçava as pernas a escorregarem pela borda da cama e chegou no chão, meio sentada, meio largada ali, líquida. Procurou os cigarros no bolso da camisa de flanela, e sentiu o perfume dele impregnado ali. Um cheiro doce de mato, de cigarros fortes e vinho tinto, e o inconfundível cheiro de tinta que matizava o fundo do que sentia e cada coisa em sua vida.

Vestiu a camisa, mesmo sem sentir frio, só para sentir a ausência com mais detalhes. Puxou um cigarro do maço e acendeu devagar, com a atenção de um ritual, depois de bater o filtro com delicadeza no maço.

Puxou a máquina de escrever de debaixo da cama, uma Remington portátil que rebatia a letra “a” metade das vezes e que espalhava o barulho das palavras na madrugada e despertava o sol, dando explicações para qualquer um que desejasse entender as olheiras e o mal humor que a acompanhavam na manhã seguinte.

Apoiou a máquina na borda da cama, e andando de gatinhas pelo quarto, porque não tinha o menor desejo de ficar em pé, puxou a mochila e deixou rolar de dentro dela a garrafa de vinho barato. Abriu o canivete para pegar o saca – rolhas, e riu por dentro ao perceber que a tampa de plástico era de rosca.

O gosto não era bom, mas era doce e intenso e enquanto ouvia a carretilha da máquina zumbir para puxar o papel, apreciou o retro gosto de tabaco e vinho que parecia ser o sabor preciso de seus dias.

Bateu as primeiras letras na página. Acendeu outro cigarro, na bituca do primeiro, e o segurou entre o mínimo e o indicador para escrever. Fechou os olhos e quando abriu, o som das teclas se encadeou em um ritmo regular e firme. Podia ver com o fundo dos olhos a cena que descrevia. Uma mulher bebendo água de uma garrafa de alumínio, sentada no escuro, olhando a tela muito branca de um micro computador, enquanto todos dormiam e um gato teimava em sentar entre seus pés. Rebateu um linha de letras “x” sobre uma frase que preferiu mudar. Continuou, descrevendo a janela sempre fechada que dava para uma parede e o som da chuva sobre a pitangueira enchendo seus pulmões de medo, e as mãos que começavam a manchar traindo a idade que o rosto não revelava, a mesma ruga de tensão que carregava desde a juventude, entre os olhos, sendo sua única marca dissonante. Batendo com força as teclas que marcavam reticuladas o papel, contou dos livros na estante, do lábio mordido enquanto escapava do sono escrevendo na tela muito clara, um farol no escuro em que se refugiava a casa, e o bater de letras que se acumulavam deixava ler o que estava escrito na tela.


“Embolou o corpo no cobertor, olhando o cipreste através da janela branca de guilhotina.”

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porque escrever é dominar fantasmas e dobrar o tempo


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