Pena de cisne

Publicação: 30 de agosto de 2011

Pena de cisne

No escuro, a goteira era seu único contato com a realidade. E a dor, que devagar forçava cada centímetro de pele a formigar e arder e fazia seus dentes trincarem, obrigando seu corpo a sair do torpor que a mantinha largada no chão ouvindo a goteira.

Forçou o movimento, sem saber que parte do corpo responderia. A mão se arrastou para mais perto de algo úmido. Engoliu em seco, arquejante, e continuou o movimento, tateando na umidade.

A lufada de ar antecipou o medo, antes das garras se fecharem no seu pulso. Gemeu, enquanto sentiu seu corpo sendo erguido, o pelo áspero contra sua pele, como se estivesse sendo atacada por um cachorro muito grande e sujo.

Sentiu o vento e se arrepiou de frio, enquanto a criatura a arrastava de qualquer jeito, um pacote desajeitado , ela imaginava, já que não podia ver. A criatura cheirava a barro, ferrugem e fumaça, e ela tentava escapar do cheiro, mas estava com o rosto enfiado no pelo, frágil demais para se debater ou tentar escapar. Não tinha mais voz para gritar, só um gemido escapava da garganta.

Não tinha como saber quanto tempo levou para diminuir o ritmo em que a arrastava pelo chão cada vez mais pedregoso, as vezes a carregando no alto, em uma vertigem, mas sempre no escuro, sem sons além do barulho da corrida, os grunhidos da fera, o tremor nos seus dentes.

As passadas perderam violência e velocidade, passaram para uma marcha instável, uns passos mais e então, a cessação do movimento. Uma névoa cinzenta nublava sua visão. Não havia nada além de pedras, pedras grandes em um círculo largo, e depois cada vez menores até chegar a uma colossal árvore morta no centro do círculo.

A criatura tinha uma forma vaga de ser humano, no modo como movia os braços ou dava os passos. O pelo vermelho estava emaranhado e oleoso. Na árvore, suspeitou da visão de urubus, dezenas deles sentados nos galhos secos, suspensos a dezenas de metros.

Urubus de olhos espertos e brilhantes.

Seu corpo sangrou quando bateu contra o chão, largado ao pé da árvore. Tentou se arrastar para longe dos urubus, mas a criatura a agarrou pela nuca e jogou de qualquer jeito contra o tronco. Um som oco vibrou pelo ar. Os urubus não se mexeram, não tiraram seus olhos dela. Agora viu que a umidade que tinha sentido no escuro deixou seu braço, sua mão, suas roupas, tingidas de vermelho sanguíneo.

Um deles abriu as asas, como alguém sonolento que se espreguiçasse, e ela tentou gritar de novo. Um corpo humano se escondia entre as penas, um híbrido entre corvo e homem. Abriu e fechou o bico, enchendo o ar com o som de madeira batendo.

Ela tentou se debater, mas não foi capaz. A criatura a ergueu, apoiando suas costas contra a árvore. Só então ela viu no rosto da criatura, os olhos vermelhos escuros, a aparência de javali.

A neblina cobria tudo que escapava para fora do círculo de pedras. O tronco estalou atrás dela, e então sentiu uma fraca pulsação, e o som dos urubus batendo os bicos começou a ganhar ritmo e força, até que todos os pássaros estavam com as asas abertas, sua aparência meio humana a mostra, as asas acompanhando o uníssono dos bicos. Não dava para pensar. A criatura a segurava contra o tronco da árvore morta, forçando suas palmas abertas contra o lenho seco que estalava e começava a pulsar de leve.

O som ficou ainda mais feroz. Os urubus agora se dividiam em dois coros. Enquanto uma parte batia os bicos, outros gritavam, gritos que faziam pensar em maus presságios e desgraças anunciadas por pássaros agourentos.

Mais um estalo, e a criatura a apertou mais contra o tronco. Podia sentir a casca da árvore umedecendo, grudenta contra sua pele, e não conseguia mais se debater, sua pulsação e a da árvore pareciam mescladas, alinhadas, e o som dos urubus-corvos-homens parecia forçar seus pensamentos na direção da árvore, da madeira, da linfa que parecia ser tragada dela e da terra para o tronco e que a cobria em um tom avermelhado, como se o sangue estivesse sendo dissolvido na seiva.

A criatura soltou seus braços, e ajoelhou no chão, com um respeito devoto. Arfava, parecia sentir dor, e ela viu com horror de si mesma que sentia pena do seu captor. Tentou esticar a mão na direção dele, mas não havia mais mãos, só a casca da árvore, onde ela parecia mergulhar devagar, no ritmo em que os urubus gritavam.

Penas negras começaram a chover sobre a criatura. Ela pensou em olhar para cima, quando os gritos começaram a se transformar em um som modulado e doce, mas não havia mais um pescoço para dobrar, e seus pensamentos pareciam correr pela madeira que estalava e revivia, e podia ver com olhos vegetais os cisnes que sacudiam os longos pescoços, as penas escuras caindo e o branco nacarado aparecendo, o som de madeira estalando nos bicos substituído pelo som delicado do canto, mergulhados no meio da folhagem, a copa imensa e rica, as folhas que brotavam em dezenas de tons de verde até chegarem a um prateado escuro e liso, que trazia uma sensação morna de calor e saciedade, pensamento humano mergulhando dentro de sensação vegetal.

Os pelos da criatura, grudados a pedaços de pele, soltavam e caiam, e ele grunhia, ora javali, ora grito humano. Tremeu, e com um som oco e feio, uma cabeça de javali rolou, caindo entre as raízes onde antes estavam pés femininos e machucados. Uma percepção vegetal olhou para a cabeça decepada, largada no chão onde se viam outras pontas de presas e crânios escapando da terra, presos entre nós e raízes que se espalhavam.

Em ppena de cisneé, o homem que bateu do braço um último pedaço de pelo vermelho tinha as proporções perfeitas de uma estátua, e o cabelo brilhante e claro. Cisnes voaram até seus pés, seus corpos meio humanos lhes dando a aparência de anjos, um manto real carregado nas mãos-asas, e o vestiram. O vento dissipou a neblina, arrastou as penas escuras para longe e a umidade começou a brotar no chão, trevos e dentes de leão cobriram a terra antes seca, as pedras se tingiram de musgo e os cisnes-anjos o levaram até o outro lado da árvore, onde roseiras subiam sobre o dossel que sombreava seu trono de pedra, florescendo enquanto as folhas se desdobravam.

Um último vestígio de pensamento humano dentro da árvore percebeu que entre as folhas que agora enchiam os galhos de dourado e prata, as primeiras flores começavam a brotar em um dia radiante de primavera.

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Esse conto foi feito a partir da proposta da Oficina de Contos, de produzir uma história de monstro.  Post ilustrado com as belas xilogravuras de Colin See-Paynton.


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