Porque é preciso escrever fantasia?

Publicação: 13 de fevereiro de 2013

Varsóvia, 1946. A capital da Polônia seguia em ruínas depois do fim da Segunda Grande Guerra. Um fotógrafo tirando um instantâneo de outro fotógrafo.

Hoje, 2013, ABC paulista, eu olho para a foto feita 67 anos atrás, e entendo porque é preciso escrever fantasia.

Varsóvia, 1946.

foto de Michael Nash, Varsóvia, 1946

Assim como há quem passe pela floresta e só veja lenha, como disse o Tolstoi, vi um bando de gente tendo uma interpretação cínica, no sentido pejorativo do termo, para essa imagem. Eu não posso. Sou duplamente venusiana, não posso.

Fantasia é escapismo, é mergulhar no que não existe, na fuga? Não, não é. A mulher na foto sabia muito bem onde estava e o que estava escondido pelo fundo pintado da foto. Mas ali está a oportunidade de mesclar a realidade com novas cores (já reparou na citação no canto do blog?), de observar algo que está além.

Uma vez falaram do amigo imaginário de uma criança X. Corrigi, dizendo que não era imaginário, era invisível. Porque pode ser que essa presença não esteja na realidade tangível, mas a realidade psicológica e o auxílio que essa presença traz são inegáveis. E assim é que uma lona pintada empresta a essa mulher desconhecida por mim uma lembrança muito menos dura, muito menos dolorida, que as ruínas de Varsóvia e as histórias horríveis da guerra. E assim é um romance ou um conto onde o que não existe nos permite lidar com a realidade e mergulhar no poético, nos permite dar essa cor, trazer esse azul para uma realidade onde as histórias tristes e as ruínas são a regra.

Podem chamar de escapismo, de literatura menor, do que quiserem. Enquanto não fazemos do mundo a Utopia que desejamos, mantemos essa imagem como guia, como oriente. E escrevemos, criamos outros mundos, lemos, vivemos mil máscaras. E é por isso que não podemos nunca parar de escrever.

 

 

 


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