talho doce

Publicação: 13 de julho de 2012

Passava uma perna pelo vão da janela, e ali, cinco metros do chão e o medo de altura, sentia acrobata de picadeiro. Acendia o cigarro, amassado de carregar no bolso, olhava a sombra amarela da lua através das agulhas do cipreste, e relembrava as palavras gravadas na placa de ouro que não podia esquecer caso a morte por fim se lembrasse dela. Olhava as páginas xerocadas sobre a cama, e pensava mais no desenho das marcas do papel do que nas letras que minutos antes a fizeram desejar, precisar, daquele cigarro.

Olhou as unhas de amêndoa, as marcas mais claras que a pele nas mãos, a tinta talho doce que impregnava as pontas dos dedos. Pensou em como era possível que as palavras de um homem morto décadas antes soassem tão recentes em seu ouvido. Era difícil respirar enquanto pensava nas letras que acumulavam no ar em torno dela, como vagalumes.

As agulhas do cipreste eram sinos graves no vento que avisava a passagem das horas.


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