Virgínia

Publicação: 20 de agosto de 2011

Virgínia é um conto steampunk ambientado em um navio corsário. O mundo do Continente, em que acontece o conto, é o mesmo do romance Kodiak…

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Virgínia

Entre o mar claro e o céu cinzento, o Virgínia brilhava metálico enquanto deixava no mar um largo rastro de espuma. Um observador desavisado não entenderia como um clipper navegava sem as velas. Olhando a partir da proa, ele seguia o desenho de um veleiro. Estreito e longo, o casco afilado, seus três mastros, a proa alta com um longo gurupés. As velas estavam lá, recolhidas. Mas em um dia de calmaria como aquele, a capitão Lefévre não tinha nenhum escrúpulo em atiçar as fornalhas que moviam as grandes pás que giravam na popa, invisíveis para quem o visse pela proa. As oito chaminés formavam um leque alto e haviam sido enfeitadas com um precioso trabalho que dava a elas a aparência de penas de pavão, deixando um rastro múltiplo de fumaça e vapor pelo ar. Enquanto outros chamavam barcos a vapor de monstros de metal, ela acreditava que era possível reunir o melhor de dois mundos em sua “ave de aço”, como costumava chamar ao navio.

No alto do mastro principal, presa por um arnês a um cabo, Lefévre observava com sua luneta o mar que se estendia liso naquela tarde sem vento, e os marujos sentados descansando de seu turno a olhavam com prazer e devoção. Vestia uma calça masculina e botas que chegavam até os joelhos, pela praticidade. Sua clara camisa rendada, com um lenço de seda cor de vinho amarrado no pescoço, deixava ver que apesar do cinturão com sabre, adaga e pistolas, ela gostava de alguma beleza e luxo. Seu cabelo amarrado com uma larga fita de cetim vermelho escuro rolava pelas costas, e era coberto por um barrete frígio em vermelho vivo.

Quase metade da tripulação usava aquele mesmo tipo de boina. Lefévre havia lhes ensinado a ter orgulho de serem escravos libertos e ostentarem o barrete como um sinal disso. Alguns dos homens, mesmo tendo nascido livres, adotaram o hábito como uma forma de apoio aos companheiros.

Cantando uma cantiga de marinheiros, ela deixou o cabo frouxo nas mãos e desceu tocando o mastro com os pés de acordo com o ritmo. Wayra, o imediato, segurava a outra ponta.

—E então, como ficamos?

Lefévre sorriu. —Eles não vão conseguir. Mande jogar mais carvão na fornalha, eu quero meu pássaro voando sobre a água.

Wayra puxou uma alavanca expondo um pequeno cone ligado por um fio ao mastro. Passou a ordem da capitão, e logo puderam sentir a velocidade aumentando ainda mais.

— Desfraldem as bandeiras. Quero que esses ogros saibam de longe quem os está atacando.

Logo a bandeira do leopardo, símbolo de Peldor, era esticada pelo veloz movimento do barco. Sob ela, a bandeira negra do Virginia tremulava: uma ampulheta ladeada por uma pena de pavão. Entrando no castelo de popa, sentindo a vibração da sala das máquinas sob seus pés, Lefévre observou o estojo de couro onde repousava a carta de corso que garantia que os inimigos de Peldor eram sua caça. Naquele momento, alianças eram feitas entre as nações do continente, e apenas um país estava na listagem de inimigos. Ela não se importava. Enquanto pudesse afundar os navios de Hébtida, estaria satisfeita.


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